Fidelidades Perversas
Ensaio em defesa das boas traições.
“Há fidelidades que são perversas e traições de grande lealdade.” Essa frase é do rabino e escritor Nilton Bonder e, desde que a encontrei, ela tem me chamado a atenção como o som de uma goteira, permanecendo comigo, carregada de um certo incômodo, nas últimas semanas. Quanto mais penso nela, mais percebo o quanto desafia uma ideia simplista sobre virtude. É comum que a gente trate a fidelidade como um bem em si e a traição como seu oposto moral. Mas a vida raramente se organiza em categorias tão confortáveis. O maniqueísmo é burro em quase todos os cálculos de conjuntura.
Há fidelidades que sustentam o abuso, a mentira e a violência. São aquelas que se confundem com obediência cega, com o medo de romper acordos ou de desagradar quem detém poder. Sendo assim, permanecer calado diante da injustiça também é uma forma de fidelidade e, muitas vezes, uma das mais perversas.
Me lembrei de uma declaração da ex-presidente Dilma Rousseff sobre o período em que foi presa e torturada pela ditadura militar. Ao falar dos interrogatórios, afirmou que mentir, naquele contexto, era um ato de coragem. Não se tratava de uma mentira para benefício próprio, mas de um compromisso com a vida de seus companheiros. Ali, falsear a verdade não significava romper um princípio ético, mas preservá-lo. A traição à expectativa do torturador era, na realidade, uma expressão radical de lealdade.
Ninguém deveria oferecer lealdade a um abusador.
Essa inversão de perspectiva nos ajuda a compreender que valores não existem isolados. Fidelidade a quê? Lealdade a quem? A resposta a essas perguntas muda completamente o julgamento sobre nossas escolhas.
Lembrei-me de outra pessoa. Um grande.
Vocês se lembram daquele pensamento de Martin Luther King Jr.? Ele continua absolutamente atual. O que mais ameaça uma sociedade não é apenas a ação dos que praticam o mal, mas o silêncio daqueles que poderiam impedi-lo. Toda violência prolongada depende de uma rede de pequenas fidelidades: a testemunha que não fala, o colega que finge não ver, a instituição que prefere preservar a própria imagem, o amigo que escolhe a conveniência em vez da verdade.
Os grandes manipuladores, os narcisistas e os autoritários raramente permanecem sozinhos. Eles prosperam porque encontram, ao redor de si, pessoas que confundem lealdade com submissão e discrição com omissão. São pactos silenciosos que lhes garantem permanência e legitimidade.
Talvez seja hora de rever o sentido que atribuímos à palavra “traição”. Em certos momentos, romper um pacto injusto é a única forma de permanecer fiel ao que realmente importa. Denunciar um abuso, abandonar uma relação violenta, recusar uma ordem ilegítima ou expor uma mentira coletiva pode parecer uma ruptura. Mas há rupturas que salvam vidas, preservam consciências e impedem que a violência continue encontrando abrigo.
Às vezes, a coragem começa exatamente quando decidimos ser infiéis àquilo que nunca deveria ter exigido nossa lealdade.
Insubordinação à tirania!
Ouça: Cobra Criada / Bicho Solto.




